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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os nascimentos misteriosos no romance de Tahar Ben Jelloun. Mito e sagrado em simbiose.

É claro que é inquietante e curiosa a presença nos romances de Tahar Ben Jelloun dos diversos nascimentos misteriosos ou terríveis. Nascimentos que atingem como um raio à comunidade que cerca o recém-nascido: família, amigos, vizinhança.  Nascimentos que comunicam tempos ruins, má sorte, que caem como maldições sobre o grupo. Os recém-nascidos são comumente, no berçário bizarro de Ben Jelloun, recebidos por mães que esconderão o rosto e selarão os ouvidos por anos a fio diante das circunstâncias, por pais que baterão no peito e gritarão sua má estrela diante do desígnio representado pela criança, por uma comunidade que receberá os respingos desta que, indiferente à calamidade que sua frágil presença representa, vage no berço à espera dos dias em que cumprirá sua sorte. Ela crescerá dentro dos romances munida de todas as circunvoluções que a narrativa lhe trará, causando espécie, espanto, no mundo ao redor. Falo de Ahmed, (L’enfant de sable). Falo de Zina (La nuit de l’erreur).


            É preciso recuar para ouvir as fontes arcaicas e entender uma parte do maktoub inculcado pelo autor aos seus personagens. E recuando convido o leitor que ainda não abandonou esta leitura estranha, a buscar na antiguidade os traços explicativos dessas crianças presentes na obra deste que é um dos mais representativos autores magrebinos.

            A sorte de Édipo foi ser abandonado pelo pai, ouvinte atônito de um vaticínio tremendo. Quem são e qual a sorte das crianças de Tebas, que o coro de Oedipe-Roi apresenta como expostas e abandonadas? São crianças que representariam flagelos enviados pelos deuses dentre os quais, a esterilidade em todos os sentidos, sobre a terra e sobre os homens, seria o pior.

            O romance benjelouniano retoma estes aspectos de forma brutal e algo misógina: as crianças desejadas e malditas são sempre meninas. Pobres meninas de quem a sorte se absteve de beijar a fronte ao nascerem. E então encontramos em Ahmed, menina que passa a vida como um homem para satisfazer a ânsia de um pai obcecado por um herdeiro. Assim encontramos Zina, de quem o autor dirá: “Je fus conçue la Nuit de l’Erreur, la nuit sans amour. Je suis le fruit de cette violence faite au temps, porteuse d'un destin qu n’aurait jamais dû être le mien ».

            Buscar na antiguidade clássica, nos mitos e temas arcaicos a matéria elucidativa dos romances de Ben Jelloun é um caminho especialmente desafiador e instigante. Sugiro ao leitor esta via, a qual aliada ao religioso e ao sagrado concebe infinitas ramagens. As origens muçulmanas do autor ditarão um caminho paralelo ao mito, mas também bastante convidativo. Porém é preciso muita luz, para não se deixar seduzir pelas sombras de um texto que esconde a mulher em trevas quase absolutas.

Boa pesquisa, caro leitor, não deixe que a chama se apague...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Redesenhando a crise através da luz da espiritualidade e da poesia.




                                                     Cláudia Falluh Balduino. 
          
Nestes tempos de seca espiritual, em que a evocação do divino e de sua infinita gama de iluminações possíveis são constantemente refutadas pelo espírito moderno que tende a recuar diante do divinal em favor do rigor e das inegáveis (contudo novas)  evidências técnicas e materiais, é necessário fazer apelo à expressão verdadeira do indivíduo profundo, à personalidade franca e legítima, autêntica e, assim, espiritualizada, para dizer do sublime. Mas é preciso coragem.
São estas marcas que definirão o pesquisador em literatura e, no dizer de Jakobson, em outras ciências do homem: ele agirá e produzirá sem peias vindas dos espaços da crítica materialista ou atéia que se torna, hélas, símbolo de razão. Penso então no racionalismo profundamente cristão de Descartes, ou na lucidez do ceticismo místico de Al Ghazali, porque este é um espaço que abraça amorosa e admirativamente as culturas árabes. Tampouco está, este Homem/pesquisador, ligado a imposições sociais que segregam conforme o grau de envolvimento com o inexplicável eterno-etéreo, ao mesmo tempo cativante porque diviniza o humano, mas irritante, para outros, porque não  responde no exato momento egótico das mentalidades em carência de respostas. A resposta não é tudo, porque é incerta. Caminhar rumo às respostas é  quase tudo.

"Audiatur et tertia pars".

Esses espaços são - entre outros, e para seguir a modernidade -, os Blogs culturais - e este blog quer ser este espaço -,  e os grupos acadêmicos de pesquisa. E principalmente este Grupo de Estudos Literários Magrebinos Francófonos. Como sítio independente que somos, convidamos à troca de experiências sobre a revelação da espiritualidade nas obras literárias, sua intensidade nos escritos que atravessam os tempos, sua etérea conformação através dos elementos simbólicos e místicos, sagrados e espirituais que deram origem a textos que têm surpreendido com doses de existencialismo teológico, ortodoxias psicologicamente amplas, iconoclasmos poéticos fulcrais, refutando com a força da palavra, à moda filosófica (Evoé, Hegel!) o poderio ideológico e político de Estados em que o homem é reduzido aos números do sistema, da colônia, do regime, das autocracias empobrecedoras do religioso, este religioso que vive sob o véu do inconsciente mais convictamente ateu (Evoé! Jung!).
Mas é preciso que o outro seja ouvido. Este outro na forma dos intérpretes, dos estudiosos da literatura de inspiração espiritualista, de universalidade ecumênica, na busca dos óleos com os quais ungiremos os benefícios culturais da reflexão sobre os gêneros literários que nos interessam, e das águas de libação do pensamento profano ou sagrado. Acredito que quanto mais um símbolo é rude, mais é saboroso e sapiencial. Da rudeza  e da suavidade dos óleos e das águas em que o espiritual imerge, emerge a literatura.
Está aberto o tempo de literatura e espiritualidade no Blog Literatura Magrebina Francófona. Neste tempo contemplaremos expressões espirituais em literatura magrebina francófona, sem restrições outras que aquelas que nos levariam para fora da literatura. Sem anátemas, contudo, mas com profunda inclusão das luzes originárias do Christos Anesti, ou seja: liberdade e renovação.