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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

sábado, 14 de abril de 2012

Rachid Boudjedra: L'insolation. O êxtase pela iridescência iconoclasta. L'extase par l'iridescence iconoclaste.


Se o iconoclasmo entre os antigos significava - e significa ainda etimologicamente -, "ação de quebrar", e entre estes mesmos antigos  (recuemos, caros leitores,  até o nascimento do islã), a força etimológica era idêntica à mesma força física que quebrou, derrubou, dilapidou e destituiu os ícones considerados como objetos de adoração entre várias religiões que o islã  não tolerou, a palavra evoluiu, contudo, e o sentido também. Para o bem da arte antiga e moderna,  "y compris" a literatura.
Saltemos pois, leitores atletas, para adiante, rumo à modernidade aflitiva da literatura. O termo iconoclasmo migra para o universo literário, emprestado primeiramente do vocabulário da história das religiões, trazendo nos ombros a carga ansiosa de escritores ligados a um profundo desejo de contestação e repúdio ao que justamente se revela como a fonte primeira dos males, síncopes, atavismos e hipocrisias de uma certa sociedade.
Assim o iconoclasmo se revela dentro da literatura magrebina como o deslocamento de uma noção profundamente islâmica dirigida através da arte e da literatura, justamente e entre outros... ao islã.


Para mim uma das maiores vozes iconoclastas desta literatura é Rachid Boudjedra. Este mesmo espaço que já o saudou uma vez retoma sua obra fecunda e proteiforme e quer agora colocar em evidência um de seus romances capitais "L'insolation", como sendo a vitrine da virulência e da arte da palavra que lança os estilhaços iconoclastas diretamente na avidez do leitor. Este quer reagir à agressão (géneralisée...) mas é seduzido por ela, porque por detrás da força verbal com a qual Boudjedra ataca, escondem-se as fagulhas, as milhares de fulgentes e irradiantes fagulhas que envolvem este mesmo leitor, antes pronto a reagir com um manto luminoso da palavra que agrupa todos os sóis (in-sol), agora levado ao espaço mudo da contemplação textual, texto que se faz visão, alucinação, miragem.
Assim vemos o iconoclasmo Boudjedriano: estilhaços de palavras-sóis, retiradas da  experiência do homem que explode mundos ignotos e banais pela palavra e os transforma em atmosferas romanescas de uma iridescência cruel e bela, que a todos nós impregna e convida ao êxtase.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os nascimentos misteriosos no romance de Tahar Ben Jelloun. Mito e sagrado em simbiose.

É claro que é inquietante e curiosa a presença nos romances de Tahar Ben Jelloun dos diversos nascimentos misteriosos ou terríveis. Nascimentos que atingem como um raio à comunidade que cerca o recém-nascido: família, amigos, vizinhança.  Nascimentos que comunicam tempos ruins, má sorte, que caem como maldições sobre o grupo. Os recém-nascidos são comumente, no berçário bizarro de Ben Jelloun, recebidos por mães que esconderão o rosto e selarão os ouvidos por anos a fio diante das circunstâncias, por pais que baterão no peito e gritarão sua má estrela diante do desígnio representado pela criança, por uma comunidade que receberá os respingos desta que, indiferente à calamidade que sua frágil presença representa, vage no berço à espera dos dias em que cumprirá sua sorte. Ela crescerá dentro dos romances munida de todas as circunvoluções que a narrativa lhe trará, causando espécie, espanto, no mundo ao redor. Falo de Ahmed, (L’enfant de sable). Falo de Zina (La nuit de l’erreur).


            É preciso recuar para ouvir as fontes arcaicas e entender uma parte do maktoub inculcado pelo autor aos seus personagens. E recuando convido o leitor que ainda não abandonou esta leitura estranha, a buscar na antiguidade os traços explicativos dessas crianças presentes na obra deste que é um dos mais representativos autores magrebinos.

            A sorte de Édipo foi ser abandonado pelo pai, ouvinte atônito de um vaticínio tremendo. Quem são e qual a sorte das crianças de Tebas, que o coro de Oedipe-Roi apresenta como expostas e abandonadas? São crianças que representariam flagelos enviados pelos deuses dentre os quais, a esterilidade em todos os sentidos, sobre a terra e sobre os homens, seria o pior.

            O romance benjelouniano retoma estes aspectos de forma brutal e algo misógina: as crianças desejadas e malditas são sempre meninas. Pobres meninas de quem a sorte se absteve de beijar a fronte ao nascerem. E então encontramos em Ahmed, menina que passa a vida como um homem para satisfazer a ânsia de um pai obcecado por um herdeiro. Assim encontramos Zina, de quem o autor dirá: “Je fus conçue la Nuit de l’Erreur, la nuit sans amour. Je suis le fruit de cette violence faite au temps, porteuse d'un destin qu n’aurait jamais dû être le mien ».

            Buscar na antiguidade clássica, nos mitos e temas arcaicos a matéria elucidativa dos romances de Ben Jelloun é um caminho especialmente desafiador e instigante. Sugiro ao leitor esta via, a qual aliada ao religioso e ao sagrado concebe infinitas ramagens. As origens muçulmanas do autor ditarão um caminho paralelo ao mito, mas também bastante convidativo. Porém é preciso muita luz, para não se deixar seduzir pelas sombras de um texto que esconde a mulher em trevas quase absolutas.

Boa pesquisa, caro leitor, não deixe que a chama se apague...