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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Uma busca sagrada: Tahar Djaout



Junto com um parente, um jovem deixa o vilarejo e parte à procura dos restos mortais de seu irmão mais velho, morto em combate durante a guerra de Libertação na Argélia. É a primeira vez que ele sai de sua montanha Kabile.  Diante dele desvela-se o mundo violento dos adultos, em uma sociedade em mutação que passa da dominação colonial à soberania nacional. Ele encontra os despojos, porém isso não lhe confere alívio, tampouco o livra da angústia. Ao contrário outras questões surgem: porque levá-lo de volta e enterrá-lo naquele vilarejo que ele sempre odiara?

Este é o tema do livro Les chercheurs d’os, (Os campeadores de ossos, trad. livre) (Seuil, 1984, sem tradução para o português) do escritor argelino Tahar Djaout (1954-1993), e que o Grupo de Estudos Literários Magrebinos quer apresentar ao público brasileiro.


Esta obra singular de Djaout, assassinado em 1993, ainda que absolutamente impregnada dos sentidos políticos que emanam da história argelina é, antes, e primordialmente, uma porta de entrada aos misteriosos e instigantes temas derivados do sagrado. A busca que se desvela empreendida pelo herói é uma busca sagrada. Busca esta que nos remete à Odisséia, à busca de Telêmaco pelo pai desaparecido e que afirma ao sair de seu país para buscá-lo: “Se não encontrá-lo construir-lhe-ei um cenotáfio e a ele celebrarei as exéquias fúnebres.”

Para os gregos antigos, um cenotáfio correspondia a uma crença precisa: quando um morto não tinha sido regularmente sepultado, não podia atravessar o Estígio e gozar do descanso eterno. Assim nasceu o costume de erigir um túmulo vazio àqueles cujo corpo não fora possível encontrar. Um cenotáfio é o que mais tarde se chamou em Roma um Tumulus honorarius.

Tahar Djaout lança-nos a rede mágica da história, o lume de seus personagens magníficos e suas árduas tarefas. Dentro da história do adolescente em busca do irmão está contida uma gota preciosa da história humana, mesclada de misticismo e de sistemas que nos conduzem à sacralidade desta busca. Este tema reproduz as pegadas do passado, daqueles que estão engajados na busca dolorosa pelos seus entes que sabem desaparecidos. Neste aspecto, a obra de Djaout é ao mesmo tempo antiga e moderna. Ela está instalada na balança da história, que repete seus erros e dramas ao longo do tempo e sobre o dorso da raça humana sofredora e ansiosa, esperançosa, ainda que impermanente.

A obra de Djaout está em paralelo com a atualidade brasileira, em que os arquivos da ditadura serão abertos e surgirão muitas possibilidades de descobrir sob as camadas de cal e cinzas os que se foram sem terem ido realmente, porque insepultos, mas não esquecidos, portanto vivos em um outro plano.
Este Grupo de Estudos quer trazer à tona a obra de Tahar Djaout, não apenas em sua dimensão política, mas fazendo um aceno ao estudo dos conteúdos do sagrado que ela faz vibrar em seu corpo literário, envolto por luz e palavras.
Uma sugestão aos os leitores: que leiam à luz do sagrado, para que o texto se eleve das cinzas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Os Mundos Marroquinos, de Mohamed Larbi Messari




Brasília é uma capital federal que guarda em seu seio "faces" do mundo inteiro representadas pelas embaixadas que acolhe. Sinal da integração e da amizade do Brasil com pátrias irmãs, dentre elas, o Marrocos.
O Grupo de Estudos Literários Magrebinos quer saudar hoje uma personalidade que esteve no Brasil e em sua passagem por Brasília prestigiou a cultura brasileira com seu trabalho, sua presença marcante entre as artes e a sua  imensa generosidade que integrou dois países amigos desde muito - o Marrocos e o Brasil. Queremos saudar o Embaixador,  jornalista, humanista, antigo Ministro da Cultura do Marrocos e escritor, o Sr. Mohamed Larbi Messari.  
Tive a honra de conhecê-lo ainda nos anos 1990, quando Embaixador de Sua Majestade Hassan II, e através dele que sempre esteve aberto aos pesquisadores e artistas, entrar em contato com escritores marroquinos como Tahar Ben Jelloun, Goncourt em 1987.

Dentre as inúmeras atuações do Embaixador Messari no Brasil, uma vai marcar sobremodo o panorama cultural: a publicação no Brasil de seu livro Mundos Marroquinos (Editora Contemporânea,1991).




Mundos Marroquinos é um mosaico que apresenta panoramas distintos do Marrocos, a sua projeção no mundo, sua diversidade e sua unidade. O autor delineia de forma muito precisa e ao mesmo tempo pitoresca e intelectual a dimensão dos pontos em que a história marroquina se entremeia com a história do Brasil, o enlace  e o surgimento de uma amizade profunda entre os dois países, a dimensão transatlântica do Marrocos, passando por episódios de história muito importantes e curiosos como aqueles que tratam do Rei Dom Sebastião, e de como um acidente marítimo foi prelúdio do estabelecimento de relações políticas entre o Brasil e o Marrocos, além de colocar à luz da atualidade a correspondência entre Dom Pedro II e Muley Abbas, um capítulo primoroso. Este é um livro fundamental para aqueles pesquisadores que desejam conhecer o Marrocos com fineza e grandiosidade de detalhes!

Mohamed Larbi Messari é  autor também do livro Mohammed V, d'un Sultan à un Roi. Esta obra, por sua vez explica como Mohammed V se tornou um lider nacional, após  a explosão da crise entre  o Palais Royal e o protetorado francês nos anos 1950, seguida à recusa do falecido rei em assinar uma série de leis elaboradas pelas autoridades coloniais, fato que o conduziu ao exílio, assim como membros de sua família.

O Embaixador Messari, foi indiscutivelmente uma ponte sólida e generosa entre intelectuais e pesquisadores brasileiros e marroquinos.
A ele saudamos com um salam wa leikoun brasileiríssimo carregado de axé, na esperança de revê-lo em breve!