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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Boualem Sansal: o indesejado dos embaixadores





Que um excelente autor ganhe prêmios é para nós comum, mesmo normal e esperado. Mas que ganhe o prêmio e não o leve para casa, é no mínimo espantoso! É o caso do romancista argelino Boualem Sansal.
Laureado com o Prix du roman arabe, pelo romance Rue Darwin, que estava previsto para entrega em 6 de junho, qual não foi a surpresa quando o conselho de embaixadores árabes na França, mecenas do prêmio, vetou sua entrega alegando "os últimos acontecimentos no mundo árabe". Por trás desta desculpa, segundo Olivier Pierre d'Arvor, membro do juri (formado também por Hélé Béji, Tahar Ben Jelloun, Pierre Brunel, Paule Constant, Paula Jacques, Christine Jordis, Vénus Khoury-Ghata, Alexandre Najjar, Danièle Sallenave, Elias Sanbar, Josyane Savigneau e Robert Solé),  escondia-se a verdadeira razão: Boualem Sansal havia participado em maio passado do Festival Internacional de escritores em Jerusalem...
Participar de um festival literário israelense, para um escritor árabe é algo delicado... O Hamas foi o primeiro a denunciar a ida de Bualem Sansal a Israel como uma traição à causa palestina...
Sansal, que é detentor do Prix des libraires allemands pour la paix explica que esta viagem, além de romper um tabu, era um gesto necessário à um entendimento mútuo...
É lamentável quando a literatura cai nas malhas da política e  do poder, que sem imaginação, muito menos humor, trata a produção artística como um de seus artefatos de barganha e de delimitação de poder.
Para o escritor marroquino Tahar Ben Jelloun,  "...mais cedo ou mais tarde isso ocorreria tendo como "sponsor" do prêmio literário os embaixadores árabes..."
Finalmente, depois de muito quiproquo, o juri se reconcilia e o prêmio é finalmente entregue a Boualem Sansal, que muito o mereceu.
A cerimônia aconteceu nos jardins maravilhosos da Editora Gallimard.
Leia os detalhes na crônica muito bem humorada do autor, mas não foi fácil chegar ao humor...

Boualem Sansal é autor dos seguintes romances:
Le serment des barbares, 1999, que obteve o Prix du premier roman e Prix des Tropiques,
L'enfant fou de l'arbre creux, Prix Michel Dard.
Dis moi le paradis (2003)
Harraga (2005)
Le village Allemand ou Le journal des frères Schiller, Grand Prix RTL-Lire (2008),  Grand Prix de la Francophonie (2008), Prix Nessim Habif, e Prix Louis Guilloux
Rue Darwin (2011), Prix du Roman Arabe.
Nenhum deles traduzido para o português...

domingo, 17 de junho de 2012

Olfa Youssef: A mulher e o sagrado ou o Alcorão sob a ótica da psicanálise.



Existe no mundo árabe hoje uma preocupação em « reler o alcorão” e em “reinterpretá-lo” e assim recusar algumas leituras extremistas. Por detrás destas petições de princípio encontra-se o postulado segundo o qual haveria numerosas leituras possíveis do texto sagrado dos muçulmanos. Esta idéia não é nova, ela existe desde o princípio do islam. Contudo, raros são aqueles que exploraram as consequências à luz dos saberes modernos. Pois bem, está quebrado o tabu: Olfa Youssef é esse nome.

Esta intelectual tunisiana, especialista em linguística e  psicanálise viveu na pele e no quotidiano as consequências das interpretações corânicas sob esta ótica. Hoje empregando as ferramentas da teoria da linguagem, da semiologia e da psicanálise ela trás à luz as estruturas linguísticas, semióticas e inconscientes do alcorão e também daquilo que seus leitores acrescentam a cada leitura. 
O maravilhoso trabalho de Olfa Youssef é digno de nossa admiração e respeito no mínimo por sua originalidade e ousadia. Ela entra com elementos da modernidade na interpretação do texto canônico com uma coragem e brilhantismo raros neste domínio em que,  desde o primórdios do islã, os homens são os detentores e a interpretação do texto santo dominada pela ótica masculina e patriarcal dos ulemás.
Encontramos em Olfa Youssef um sinal da transformação do mundo árabe, diante da modernidade da globalização e das inevitáveis mudanças em todos os segmentos da sociedade. E uma transformação em um nível muito profundo, pois o islã não é apenas uma religião, mas uma civilização e um sistema jurídico. A primavera árabe comprova a sede de mudanças e o papel da juventude foi fundamental. Ainda que os efeitos não sejam vistos em plenitude e muitos falem em caos, o movimento que revolucionou o mundo árabe com certeza revolucionou em primeiro lugar as consciências.

O trabalho de Olfa possui sonoridades das origens do islã. Conta-se que algumas mulheres da primeira comunidade islâmica eram ardentes feministas, como a antiga guerreira Nusaybah. Ela um dia perguntou a Maomé por que razões, no Alcorão, Deus se dirigia sempre aos homens e jamais às mulheres. Conta a lenda que Allah reconheceu a validade de sua questão pois, após a demanda a Revelação falará ao mesmo tempo dos "Crentes homens e crentes mulheres". Esta lenda é considerada um racionalismo apócrifo... Contudo o texto corânico está abundantemente envolvido por personalidades femininas de peso como aquelas derivadas de outros monoteísmos como Eva, Belckis, a Rainha de Sabá, a própria Virgem Maria, passando pelas mulheres islâmicas, que seguiram o profeta em diversas situações como Aicha, Zaynab, Oum Salâma, Çayfa, Maymouna, Khawla, Rayâna entre outras, mulheres de extraordinários feitos na proximidade do profeta Maomé, acolhidas por ele. Como o islã pôde excluir o feminino de forma tão enfática em sua conduta pelos séculos? Sabemos que foi devido a interpretações misóginas. Daí o grande valor de Olfa Youssef que nos explicará mais...

Nosso intuito não é classificar as ações islâmicas referentes à mulher. Sabemos que dentro do cristianismo a mulher foi igualmente vítima de aplicações preconceituosas e misóginas durante mais de dois mil anos... Sabemos também que as mulheres foram as grandes amigas do Cristo e  que seus detratores e traidores foram... homens. O primeiro ser a quem foi anunciada a vinda do Menino, foi uma mulher: a Virgem Maria. Também foi uma mulher a primeira a ver o Cristo ressurreto: Maria Madalena, e sabemos também com quanta crueldade o nome dela foi tratado ao longo dos séculos...

Enfim, leitor amado, está semeado o campo.
Olfa Youssef é autora de Le coran au risque de la psychanalise (Albin MIchel), de Démunis de raison et de religion et Confusions d'une musulmane. (Nenhum traduzido para o português...)
Sugerimos o Blog da autora em http://olfayoussef.blogspot.com.br/.