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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

sábado, 27 de outubro de 2012

Um chá no harém de Tahar Ben Jelloun: o romance Harrouda.




As primeiras manifestações  da representação da mulher na obra do escritor marroquino Tahar Ben Jelloun surgem do silêncio oculto e umbroso da infância.
Primeiro emerge a imagem da Mãe, pureza recôndita, inocência várias vezes tentada, mas jamais seduzida, que traz a vida e organiza o caos. Segundo o texto sagrado dos muçulmanos, a mulher é aquela em quem a vida se esconde “... sob os três véus de trevas: âmnion, útero e ventre”. (surata Az-Zumar). Sobre ela o autor dirá:
Je suis né de la souffrance d’une procréatrice qui a coupé le cordon ombilical de l’endurance dans le sang aveugle.
Ma mère, une femme.
Ma mère, une épouse
Ma mère, une fillette qui n’a pas eu le temps de croire à sa puberté.
Ma mère je t’écoute.


Depois surgem as outras mulheres, não tão ocultas assim, públicas certamente: a mendiga, a prostituta, as primas e demais mulheres, todas tentadoras e perniciosas, proibidas e eróticas, estrangeiras e pagãs. Fazendo parte de uma corte extravagante, algo sinistra, porém extremamente desafiadora e instigante, estas mulheres são o motor do desejo, a profunda manifestação das obsessões ocultas, algo paranoicas, algo celestiais, elas desfilam seu cortejo sincero e andrajoso nas páginas do primeiro romance do autor marroquino Harrouda.

Neste romance essencial estão expostas as primícias das personagens femininas que levarão Ben Jelloun rumo aos grandes prêmios da literatura mundial. Como um sutil comprador nas prateleiras da vida humana, o autor recolhe em um grande cesto os avatares femininos que o vivido envolto de rara felicidade e de fatalidade abundante propõe e depois os instala em sua coletânea livresca feita de milhares de rostos femininos emparelhados na estante romanesca da mescla e da pureza que faz sua obra.

Harrouda é a mulher-mito, orgânica, essencial, quintessencial. Dela partem as escolhas de todas as outras que surgirão e povoarão o gineceu vário e sutil que a obra de Ben Jelloun constitui. Ela é o ser que vaga nas medinas antigas e labirínticas, que ora vive da caridade dos passantes, abrigada na clandestinidade dos cantos escuros e desprezados da cidade, ora se transforma na rainha superbe dos imaginários masculinos, ali reinando absoluta, envolta nas centenas de véus luminosos da imaginação e do delírio, soberana entre os meninos e os homens, jamais excluída, jamais esquecida. Harrouda é a graça libertadora contida na glória do maternal e também o vício escravizador que domina o relógio das poluções, a libido imortal e a gana pelo outro. Ao mesmo tempo rainha e mendiga, anjo e djinn dos poços, Harrouda se une às formas dramáticas da cidade árabe para incrustar sua loucura e sua lucidez no coração do imaginário masculino marroquino.
Harrouda é a chave do enigma de todos os romances de Tahar Ben Jelloun.

Por Cláudia Falluh Balduino Ferreira
Edição utilizada : Harrouda. Paris: Futuropolis/Gallimard. 1991. Ilustrações de BAUDOIN. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Existe humor no islã? As mulheres respondem.

Existe humor no islã? Esta nunca foi a pergunta que não quis calar, portanto, pergunto, (logo, continuo existindo)  e vejo uma das respostas no livro da tunisiana Leila Labidi, "L'humour dans l'islam" (El fakah fil islam).
Publicado em 2010 pela editora libanesa Dar Essaqi, (Beirute) ainda sem tradução do árabe, o tema é, no mínimo, insólito, mas não deixa de cair bem e surpreender neste momento em que o islã é colocado em evidência através do famigerado filme que tanto tem causado polêmicas e mortes pelo mundo afora.
Dentro do contexto do filme e de seu impacto nas comunidades islâmicas mundiais a última coisa sobre a qual se poderia pensar seria no humor. Deixemos, pois, o malfadado de lado, de vez que ele não foi confeccionado por muçulmanos, mas por seus infernais inimigos americanos em tempos de eleições (continuo existindo...) e uma discussão, ainda que seja interessante do ponto de vista sociológico, não é nosso propósito.
Quero, isso sim, falar do humor dentro do islã. Este aspecto desta religião tem passado despercebido devido a razões que conhecemos todos e que causam o atolamento da religião islâmica aos olhos ocidentais em todos os ismos maléficos e estuporantes com os quais se tornou praxe defini-la e aos seus crentes pelos olhares menos arguciosos, logo, mais rudes. É preciso deixar de lado a rudeza imposta pelas convicções mediáticas para conseguir ver o que só os ex-rudis conseguem. Por isso é tão difícil compreender o outro: muitas vezes a explicação não vem da observação crítica, mas do pré-conceito herdado.
Leila Labidi é uma destas ex-rudis, que de forma brilhante percorre o texto sagrado dos muçulmanos em uma busca fortuita e coroada de uma pesquisa de sucesso sobre a imagem do Profeta, seu caráter, sua troca com os que passaram em sua vida,  revelando o islã pelo ângulo dos momentos de alegria, de graça, de jovialidade, de riso e de sorrisos que marcaram a vida de seus primeiros adeptos e do próprio Maomé. A autora passa em revista as grandes épocas e escolas do riso durante a Antiguidade greco-romana e entre os primeiros árabes, consagrando neste livro um capítulo inteiro ao "riso de Allah". Tudo isso folheando minuciosamente o alcorão e os ditos do Profeta, a tradição. O texto de  Layla Labidi traz informações que ao mesmo tempo divertem, instigam, enfrentam os tabus e sobretudo provocam a reflexão e assim esclarecem - a despeito das concepções pré-estabelecidas tanto entre muçulmanos como não-muçulmanos -, a aura de austeridade, de gravidade e de sinistra frieza que inspirariam a religião de Maomé.  
 
Nestes tempos calamitosos que vivemos, em que a religião é o estopim e o pretexto para as discórdias humanas, em que ribombam os ecos antigos e sangrentos das Cruzadas  pelos quatro cantos do planeta é no mínimo sublime a iniciativa intelectual de Leila Labidi.  

A mulher e o sagrado.
 
A visão feminina do sagrado e da performance da mulher em religião sempre foi o que deu alento às religiões conhecidas como "do Livro", o judaísmo, o cristianismo, e o islã. Os textos santos sempre encontram fôlego na presença da mulher, cuja performance junto aos 'arautos' de Deus, alivia as leis draconianas que os homens criam para tentar compreender e interpretar o Criador. E muitas vezes as mulheres são vítimas destas mesmas leis. E só passar em revista a situação da primeira mulher Eva, e percorrer o judaísmo nas faces de Esther, de Rute, de Judith, de Suzana, de Sara. Sigam pela transição ao cristianismo que a Virgem Maria representa, por Maria Madalena, Joana, Affia e Febe, mencionadas por São Paulo, entre muitas outras que os Evangelhos informam terem sido seguidoras do Cristo, mas sempre como figuras secundárias, veladas, ocultas pela preminência masculina que rege até hoje a prática religiosa. Daí tanta intolerância e vaidade a meu ver. E finalmente  no islã, surgem mulheres impressionantes e importantíssimas como Amina, Khadija,  Halima, Aicha, Zaynab, Çaifa, Maymouna. Mas verdade é que nomes de mulheres não são citados no Alcorão, à excessão, pasmem, da Virgem Maria  citada não menos que 34 vezes e a quem uma surata inteira é dedicada. A mulher está para o sagrado como a árvore para as folhas, a semente para o fruto, a água para a vida. É intolerável ter sido mantida apartada da prática religiosa e espiritual ao longo da história.
 
Leila Labidi, assim como sua conterrânea, a tunisiana Olfa Youssef são duas mulheres que colocam o islã sob os holofotes da pesquisa, da modernidade levantando fontes, confrontando dados, introduzindo na leitura as modernas teorias interpretativas e revelando dados, detalhes e lados do texto sagrado, o qual desde sempre reduzido e amarrado na exegese e na ótica masculina do orgulho e do egoísmo, transformam Deus em algoz e os que nele crêem em mujahidins do sagrado.
Realmente, assim não tem a menor graça...

Por Cláudia Falluh Balduino Ferreira