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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Novíssima geração de escritores magrebinos.

                 Nestes tempos de promessa de fim de mundo, há quem, antes de entrar em um confortável e fofo bunker para ali aguardar o apocalipse roendo as unhas, considere também o fim da literatura marroquina de expressão francesa. Alguns, mais pessimistas ainda trombeteiam o fim da literatura árabe de expressão francesa, cujos ícones estão envelhecendo, muitos já se foram, e o mundo pós colonial, que levantou uma geração de poetas e romancistas espetaculares, hoje dorme cansado de guerra, os pés sobre os almofadões da memória e galões no peito meio foscos de tanto neles bater a mão que agora pende. Em seu lugar surge o contexto estupendo de uma certa primavera árabe, iniciada por revoltas ancestrais contra modelos já mais de uma vez abatidos, mas que ressuscitaram como zumbis na pele de ditadores cafonas, cabelos e bigodes nigérrimos banhados em henée e despoticamente ignorantes. Uma primavera árabe em desencanto, até que a Alcaida destrone Bachar el Assad. Só não seria pior se esta mesma primavera não tivesse sido suscitada por jovens. Munidos de suas câmeras e seus celulares, entusiasmaram o mundo, para em seguida se desencantarem com o ranço ditatorial que teima em ressurgir como praga.
Pois bem, para nos surpreender, para nos acordar da tarde modorrenta em que os ícones tomam chá com biscoitinhos e provar que há uma geração a caminho dentre os grandes nomes da literatura marroquina, surge o romance "Aïcha". 
        Vem de Agdez, Marrocos. 
    É escritos por jovens. Um romance escrito em conjunto por 19 jovens estudantes secundários marroquinos.
      Já consigo escutar a velha guarda  franzir o sobrolho, torcer o nariz onde cavalga um pincenez e dizer com os botões do pijama: alunos? Obra coletiva?  As vezes muxoxos são audíveis, como paredes tem ouvidos e como livros se escrevem diferentemente hoje. 
    Deixemos para lá os saudosistas que dormem abraçados ao passado e vejamos de perto esta maravilhosa ousadia destes jovens marroquinos.
      Dirigidos por um ousado professor que se denomina un Esprit libre, Aïcha é um romance escrito pelos alunos do liceu de Zagora (Liceu Ibn Sina, Mazguita, Agdez, no Marrocos) Trata-se de uma produção que surgiu de uma experiência no âmbito de um atelier d'écriture. Lahcen reunia os alunos e nessas reuniões era preparado o romance. O objetivo do professor era permitir que os alunos se expressassem, que falassem de si, ..."Ils sont pauvres, mais leur imagination est riche. Ils sont petits mais leur passion est grande".   


O livro relata as aventuras e desaventuras de uma jovem marroquina, do meio rural, pobre oprimida, solitária e atarefada. O grupo coloca ênfase sobre a condição da mulher bérbere marroquina das regiões do sul. Uma situação difícil: sociedade ultra fechada, casamentos precoces, ausência de liberdade, etc. Aicha e seu perfil iluminam este obscuro sítio marroquino, Agdez, onde as  tradições e o patrimônio deixam pouca brecha ao moderno. Ela vive sob o jugo da madrasta, sobrecarregada de tarefas e com pouco tempo para os estudos. Uma gata borralheira bérbere, sem dúvida, reflexos de Cendrillon que estão por todo lado neste mundo, ainda que pensemos o contrário. 


Agdez , Marrocos. Foto de Lahcen.


A experiência do professor e seus alunos em criar um romance coletivo e publicá-lo é no mínimo surpreendente. A forma coletiva do romance é emprestada do moderno WIKI e tem  um mérito imenso de unir imaginários na costura de um argumento literário. Não havendo nada de novo sob o sol, e considerando que Cinderelas são antiquíssimas, resta àqueles tocados pela vontade de criar, fazê-lo com novas tecnologias da informação e utilizar também a nova modalidade de publicação que a editora propõe, que so peca no alto preço do livro. E este pequeno livro é um exemplo extraordinário. Também o é o fato de ser escrito em francês, não em árabe, no Marrocos profundo, Isso prova que o idioma permanece neste país como herança do protetorado, como um bem cultural inalienável e que é empregado pela novíssima geração de lycéens
Portanto, longa vida aos romances marroquinos de expressão francesa, sejam eles escritos por quem for. Parabéns a Lahcen, que além de excelente professor é um grande fotógrafo, apaixonado pela sua região, como podemos ver.



Excellent interview avec B.  Lahcen : http://www.almaouja.com/sur-la-vague/initiatives/418-aicha-le-temoignage-collectif-d-un-groupe-de-lyceens-d-agdez

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Uma viagem pela caligrafia e pintura de Rabah Soukehal, um artista argelino.


Se o poeta caligrafa o mundo com a palavra, o calígrafo, por sua vez poetiza a palavra com seus pincéis e ‘qalams’ de variada natureza.  Mas quando a poesia é o tema do calígrafo, então palavras e imagens se unem em um projeto simbiótico e fecundo, cujo resultado é o deleite pela visão da palavra amorosa e poética.  É o que faz o excelente calígrafo, pintor e músico Rabah Soukeral.

Argelino, nascido em Annaba,  “... cidade que se banha na luz, deitada às margens de uma magnífica baia, embalada pelos incessantes fluxos e refluxos mediterrânicos”, a arte caligráfica de Soukeral mergulha em água, ar, luz e calor, enfim toda atmosfera mediterrânea que envolve em perfume  as terras argelinas. Em sua arte está contida a liberdade da linha em diálogo perpétuo com a beleza e a sensibilidade. 















"A única verdade é amar tudo o que vive sobre a terra"
Maître Fakir, Rajastan, Inde. Encre de Chine, 40X50 cm, 2007, collection privée.








                 "Pour tes yeux, mon coeur n'a rien trouvé et ne trouvera pas". El Moutanabi, poète arabe, (915-965)













 A pintura de Rabah Soukenal é surpreendentemente iluminada. Certamente são reflexos (literais...) de  suas origens. O artista transita entre a cidade e o mar, a mulher e o menino, a vida e a morte.

La Casbah d'Alger. 

Em meu livro Calligraphie de la douleur, l'art et le sacré dans la poésie arabe sur le martyre , Sarrebruck: EUE, 2011, trato do tema da união das duas artes: a caligrafia e a poesia, na construção de uma poética árabe marroquina especialíssima e essencial. O entendimento do mundo do poeta árabe islâmico passa pela contemplação estimulante do universo caligráfico que o envolve. o poeta e o calígrafo tecem as imagens e o mundo através da palavra. Ambos cativos para sempre, não dos dogmas, mas da percepção e do vivido. 



"Um irmão não é necessariamente aquele que tua mãe gerou". Provérbio árabe.

Tempête.

La mère et son enfant.



"O ser que amo e desejo  me visitou ontem. Passou a noite em minha companhia e despertou reconhecido."
Mohammed Ibn Msayeb, poète algérien.



Chaouia. (Berbére algérienne des Aurès)


Assim mesclando a arte caligráfica e a pintura, este excelente artista argelino concilia mundos e expande imaginários. Em suas mãos a caligrafia ultrapassa os limites de sua função sagrada para trazer à luz a poesia amorosa, interessante e intensa dos antigos poetas árabes e persas. 

VISITE o excelente site do artista em:
para deleite de nossos leitores.

Por Cláudia Falluh Balduino Ferreira. Brasília.