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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

sábado, 2 de agosto de 2014

"Nossos intelectuais são instrumentos do poder, são covardes", lança o poeta sírio Adonis.

Encontrar o lugar ideal da palavra em meio ao que acontece na Palestina atualmente, diante do massacre das crianças de Gaza não é fácil. 
Não é fácil para o cidadão comum emudecido e impotente em patética postura face à televisão e cada vez mais indignado, mas,  menos fácil ainda o é para os intelectuais, escritores e seres da cultura. Para eles é ainda mais duro e desfiador, porque é o momento em que ele terá que provar o valor do seu instrumento de trabalho : a palavra, a expressão, o verbo escolhido refinadamente, agora em meio aos escombros da linguagem que se faz frágil e inútil. Enquanto crianças e varões palestinos agonizam e tombam, o verbo, aliado ancestral em tempos de guerra e paz é atingido mortalmente pelos estilhaços da impotência carregada de indignação dos escritores e intelectuais do mundo inteiro.
Se a virtude da palavra, sopro do homem, portanto prima do divinal é cura e a redenção, onde estão as vozes a conclamar ao livramento um povo da extinção eminente perpetrada metódica e cirurgicamente pelo sionismo impiedoso e indiferente que ataca milimetricamente asilos, igrejas, mesquitas hospitais e usinas elétricas filhas-únicas? E se a palavra tem parentesco com o divino, 'voz do povo, voz de Deus', tememos achar que o até o divinal cansou-se das agruras palestinas. "Allah n'est pas obligé", lança um poeta africano. Porém o que mais o mundo ouve é o antigo verso bíblico, onde uma mulher, Raquel, encarna todas as mães palestinas neste momento. "Em Hamá se ouviu uma voz, choro e lamentos? É Raquel a chorar seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem" (Mt. 2:17) Certo, Hamá é uma cidade síria, ao norte de Damasco, que significa "fortaleza",  mas eu lhe pergunto, leitor: há diferença?

Adonis, à esquerda, e à direita o libanês Amin Maalouf, na FLIP de 2012
Mas há quem se indigne, e exasperado, trate duramente os intelectuais sobretudo os árabes não poupando palavras. É o escritor sírio Adonis. Octogenário, Adonis pertence a uma casta de intelectuais que está em extinção. Podemos pensar que é uma voz já cansada de não ver soluções para o mundo em que nasceu, portanto exclama sem medo, sua idade o autoriza... E esta força, autoridade e destemor é admirável nos anciãos! Que todos ouçam e reflitam e avancem em combate cada qual com suas armas. Oremos para que outra surja tão nobre e destemida, mas não estamos esperançosos. Não é tempo de esperança, hélas, é tempo de luta, por isso, com a palavra nem tão em frangalhos assim, o poeta Adonis.

Seguem extratos de sua fala, compartilhados do site Histoire et Société.

http://histoireetsociete.wordpress.com/
http://histoireetsociete.wordpress.com/2013/07/20/adonis-aux-intellectuels-arabes-vous-etes-des-laches/

« Nos intellectuels sont des instruments du pouvoir, ce sont des lâches! »
Et il dit cela en Algérie, aujourd’hui. Qui l’aurait cru ?
Ce vieux poète est allé en Algérie cracher ses vérités, vomir le fond de sa pensée et maudire les gouvernements arabes qui sont restés aujourd’hui à la traîne des nations. Des hommes politiques qui ont pourtant été parmi les libérateurs de leurs Etats du joug de la colonisation.
« Vers une résistance radicale et globale » conseille-t-il au public qui l’applaudit.
Une magnifique conférence sur l’impasse de la pensée arabe et la crise de modernité qui secoue les sociétés arabes. Sa venue a drainé un public fou, tant son discours est en rupture totale avec le politiquement correct, la langue de bois, et le discours officiel dominant.
D’emblée, il s’est attaqué à la question de la « nécessaire » sécularisation des pays musulmans.
« Je suis respectueux de l’islam. Je suis au-delà de toutes les religions, je vais au bout de toutes les spiritualités et des expériences humaines. Mais je suis totalement opposé à l’islam institution, à l’islam régime », dit-il.
De la provocation. De l’audace. Du courage, en veux-tu en voilà. Et ce n’est qu’un début, car le conférencier ne va pas mâcher ses mots. Il s’attaque aux régimes arabes, particulièrement ceux qui ont pris le pouvoir depuis la seconde moitié du 20e siècle et qui vivent un échec cuisant, car « ils n’ont pas pu libérer l’Homme et asseoir des Etats modernes basés sur le droit et le respect de l’individu. »
Il argumente sa réflexion en se basant sur la dure réalité à laquelle font face les populations arabes et musulmanes.
« Ces politiques ont des réflexes tribaux, ils nient l’individu et la liberté individuelle. Les élites politiques qui se disent progressistes et laïques, qui ont libéré leurs pays du joug de la colonisation, n’ont fait que perpétuer le clanisme et le népotisme et sont soutenus par des intellectuels, ce sont leurs complices !»
Adonis tire à boulets rouges sur ces « intellectuels » qui n’ont aucune valeur morale.
« Dans nos sociétés arabes et musulmanes, l’élite intellectuelle ne remplit aucun critère de probité morale qui lui permet d’être à l’avant-garde des changements nécessaires. C’est-à-dire la sécularisation de la société qui est au cœur de la crise de la modernité dans ces sociétés. »
Il va encore plus loin, écœuré et blasé par la situation actuelle, politique, culturelle, sociale et économique qui prévaut dans les pays arabes, ce poète hors normes vomit le fond de sa pensée et il le dit tel quel : « advienne que pourra ! »
Non mais vous le croirez ? Encore un bout :
« Les intellectuels dans le monde arabe manquent de courage, ils sont frileux lorsqu’il s’agit d’évoquer la question de la laïcité : le texte (le Coran) est constant, mais son interprétation change, or il n’y a aucun effort de questionnement théorique en la matière », déplore-t-il.
Ainsi, l’absence de pensée critique a coupé l’intellectuel arabe de la société, faisant de lui non pas un être autonome pensant par lui-même, mais un «instrument» au service des gouvernants. Comme tout ça est vrai. Il explique que le monde arabe est privé aujourd’hui d’une élite intellectuelle qui remettra en cause la pensée traditionaliste et les modèles tribaux.
« Nos sociétés sont sclérosées. Nous sommes absents de la carte du monde actuel et en marge du cours de l’Histoire », se désole-t-il encore.
Il s’en est pris violemment aux intellectuels arabes qui, selon lui, ont joué le jeu des régimes en place en remettant en cause le lien solide entre Etat et religion.
A la fin de la conférence, la Bibliothèque nationale a remis à Adonis une distinction. Son amie de longue date, Djamila Bouhired, s’est fait un plaisir de la lui offrir au milieu des applaudissements et des youyous.

sábado, 19 de julho de 2014

Do martírio palestino ao texto: a poesia árabe como forma de oração.


Quando escrevi Caligrafia da dor, a arte e o sagrado na poesia árabe sobre o mártir http://www.amazon.com/Calligraphie-douleur-po%C3%A9sie-martyr-Edition/dp/6131568650 imaginei  que minha inútil indignação contribuiria como gota no oceano, mas contribuiria sob forma depoimento sobre o conflito palestino, que sempre se mostrou ser uma chaga aberta da humanidade. Terra de derramamento de sangue, terra dos padecimentos do Cristo, a Palestina continuava em seu clamor ancestral, intensificado com a criação do estado de Israel em 1948. Mas o mundo seguia sua rota indiferente e hoje, tantos anos depois, o livro que originou de meu trabalho de doutoramento parece mais cruelmente atual do que eu jamais desejara.
É claro que a poesia nada pode contra a vida. É claro também que da vida pouco resta sem poesia. Mais claro ainda que a poesia sobre a dor, a tristeza e a perda pouco é poesia, mais é vida, mais é oração. Se a oração ganha os corações, breve ganhará as páginas, pois o coração do poeta é branco de linhas negras.  E se ganha o coração do poeta, é porque viu o mundo e viu a vida e a consequência é um misto das duas, em uma simbiose aguda e inseparável a poevida, ou a vidapoiesis.

É desta simbiose estranha e contumaz que surgiram os poemas de La remontée des cendres do marroquino

Tahar Ben Jelloun. Escrito em memória dos mártires do Golfo e do conflito palestino em 1992, o livro ressurge hoje atordoando a todos com sua velhinovice reformulada. Velho porque poesia; novo porque o conflito novamente aí está: o Iraque novamente vilipendiado, duplamente destruido, logo desaparecendo, e crianças palestinas às centenas sendo dizimadas sob os olhos tutelares e cínicos das potencias imperialistas do ocidente, que além de velhas, são hipócritas e sádicas.O assassinado de um jovem palestino Mohammed Abu Khudair queimado vivo em vingança ao assassinato de três adolescentes israelenses em 1º de julho de 2014 faz um coro funéreo com o poema sobre o rapaz Ali Saleh Saleh, de La remontée, executado em 1983.
Acusações, talião, revanche, neste clima as questões evoluíram até o que a presente se vê pela televisão: Gaza arde em chamas e luto, e todos nós, impotentes diante do fato.
Por isso a poesia, no caso a poesia marroquina de expressão francesa surge para transcender a desonra e a crueldade para dizer que o conflito palestino continua a girar rumo ao alto a pedra sacrificial e sisifiana. Mas haja poesia, que no fundo, é totalmente inútil se não se converter em oração...

Ali Saleh Saleh
29 de abril de 1983
Levaram o corpo dele enrolado em uma pele de carneiro
a cabeça e os pés nus ficavam de fora
brancos de poeira.
Lentamente seus membros deitaram-se no
            dia
O solo se abriu e o enlaçou num infinito
            abraço.
Ele tinha dezessete anos
Ali Saleh Saleh
Seu primeiro amor em Saída
foi a morte atada aos quadris da árvore.


Sobre Calligraphie de la douleur:

De quelle façon le poète arabo-musulman moderne hérite-t-il de la tradition artistique et religieuse du passé et les transforme-t-il en agents d'une poétique? A quel point le poète du présent et le monde du passé concilient un projet commun? Ce sont ces questions, entre autres, que ce livre cherche à éclairer visitant les élégies immenses et profondes de La Remontée des cendres, de Tahar Ben Jelloun, poèmes écrits sur la guerre du Golfe et le conflit palestinien. L'entrecroisement de la littérature et de l'art calligraphique et des arabesques, la question de l'image dans islam des débuts, guideront ce texte vers les origines et allieront l'histoire et la phénoménologie dans l'explication du sens propre de la poésie arabe moderne. Il s'agit d'une analyse de cette poésie qui répudie la banalisation de la douleur et rend hommage aux martyrs, visitant le tragique à la lumière transcendante des arts. Le poète et le calligraphe tissent les images et le monde par le biais du mot. Tous les deux captifs à jamais, non des dogmes, mais de la perception et du vécu.