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Brasília, DF, Brazil
Cláudia Falluh Balduino Ferreira é doutora em teoria literária e professora de literatura francesa e magrebina de expressão francesa na Universidade de Brasília. Sua pesquisa sobre a literatura árabe comunga com as fontes do sagrado, da arte, da história e da fenomenologia em busca do sentido e do conhecimento do humano.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Vinte mil visualizações do Blog Literatura Magrebina Francófona, ou a literatura como um instrumento de cultura interior.

Estimados leitores, saudações!



     A divulgação e reflexão sobre literatura é, acima de tudo, um prazer, e assim combina, como quero e acredito, com o dizer de Gustave Lanson, "A literatura está destinada a nos legar um prazer, mas um prazer intelectual, de vez que está ligada ao engenho de nossas faculdades intelectuais, faculdades estas que, a seu contato saem fortificadas, leves, enriquecidas."

     Estes últimos anos foram de intensa atividade  de pesquisa e o Blog Literatura Magrebina Francófona, meu canal preferido, meu tipo inesquecível!
Concebido e inteiramente montado por mim, ele tem trazido reflexões importantes sobre a literatura árabe de expressão francesa: literatura dos árabes falantes de francês. 
Mão de Fátima. Amuleto.

     Deste lado do Atlântico, contudo, o mundo magrebino pouco ressoa além das páginas turísticas: são as praias de Agadir, os crepúsculos de Marraqueche, os souvenis de Casablanca, a medina de Argel, branca e suave. 
     Mas o Magreb literário é outro. Não menos belo, tampouco, simples. O exotismo fragmenta-se em uma verdade que a palavra transporta dos velhos pátios mouriscos para o interior das páginas da literatura magrebina. Nelas entramos, com pudica reserva dos que atravessam os portais das primeiras páginas, como o visitante que perpassa os portões das casas magrebinas, para boqueaberto admirar o mundo colorido, refrescante e aprazível das moradas marroquinas, suas fontes, seus relógios solares, seus brocados e cetins internos. 
     Mas que não se iluda o leitor. Nada é dado de graça. A casa é um arquétipo astuto e misterioso. É lar, mas é também porões e sótãos. É morada, mas é também cozinha angustiosa, quartos solitários, esquecidos, trancados para sempre, chaves ocultas, cadeados infames, clarabóias especulares e infinitas. A casa-literatura magrebina é austera morada de fé e pecado, de mulheres e homens perpassados por paixão, êxtase, mas também culpa, é terraço aberto ao céu e ao raio, é belvedere onde se ama e se chora, reservando para o final a contemplação do destino e do horizonte derradeiro. Cabe ao leitor descobrir a chave, desvelar passo a passo a casa, fôlego contido, respirar aliviado porta a porta  e, temeroso com os rangidos e tremores, finalmente entrar. 
    Cabe ao leitor deixar passar os ventos da memória, da erudição, da curiosidade. 
  Já ao autor cabem as armadilhas, as tocaias, os degraus traiçoeiros, os escuros indecentes, a transparência vítrea das verdades da fé, do amor e do ludismo, ou da escravidão. 
     Essa é a literatura árabe magrebina com a qual tenho lidado.
   Espero que esteja sempre por aqui, caro leitor, a descobrir nos nomes ofertados e a devotar à descoberta dos textos um olhar no grau daquele lançado ao objeto de amor que temos e que, ora nos escapa, ora nos fastia, porque é etéreo, efêmero, infinitamente constante e inconstante, impermanente e eterno, ou seja, plenamente literário.

     Meu abraço agradecido pela sua visita que compôs vinte mil olhares.

     Cláudia Falluh Balduino Ferreira

terça-feira, 25 de novembro de 2014

II Jornada Literatura e Espiritualidade, na UnB.



               Onde está o sagrado no mundo atual?
         Nestes duros tempos de decadência em que vivemos o sagrado é escândalo, por muitos ignorado, por outros tratado apenas no escuro do quarto, em períodos de crise vivencial, quando torna a alma aflita para Deus em busca de soluções. Isso quando alma há...Para outros Deus modernizou-se assim como Sua palavra, a tal ponto que dela se servem em edições revistas e ampliadas, que servem ao coração humano em suas infinitas chagas, ou como escusas ao ato, que de tão moderno se faz desconhecido, mas não para Deus.
            Seja como for, as relações tecidas entre o sagrado e a humanidade a cada vez mais parecem esconder-se, desaparecer, eu diria, diante da sofreguidão com que o homem recorre à violência, essência humana, matriz de males e temas, para resolver os intrincados e constantes, imperecíveis e eternos jogos do poder, pai do ego, primo irmão do desejo.
           Indefinível, o sagrado é sentido, qual corrente elétrica, muito mais em seus efeitos, nunca por sua exposição. Mas estará o homem moderno disposto a acolher suas manifestações na atualidade das horas? E nestas horas atrozes, quem responde pela busca sacra, quando somos tragados por tecnologias e avanços, razão em busca de luz, e luzes que se desfazem em trevas, trevas do espírito em versão numérica, tratado em inglórias repetições de erros bélicos, científicos,mordazes como químicas solventes e e nadificadoras? Quem colhe hoje do bem e da graça benfazeja do sagrado? 
          Enquanto pensamos, há quem recorra a fórmulas antigas para adequar a inquietação do mistério às confecções do espírito criado criador. Falo do homem e da literatura. Dentro desta díade leal e purificadora, desta composição antiga e eficaz o homem considera sua ligação e religa, estipula seus limites para transcendê-los através da palavra poética, do texto em suas urdiduras às vezes vorazes, às vezes tênues, em que a duplicidade da condição humana surge aliando-se e coordenando-se com as fontes sutis do sagrado, da religião, da espiritualidade em sua dimensão total, porque unidos estão os artefatos da arte com a inspiração superior.
                  Literatura e espiritualidade. Dia 27 de novembro na Universidade de Brasília, é uma chamada ao texto em sua prioridade sacra.